Narrativas
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DESCRIÇÃO DA VIATURA DO
FAROL DE MOSTARDAS
Jonas d'Oliveira Paredes
Capitania dos Portos do Estado do Rio Grande do Sul
Rio Grande, em 1º de fevereiro de 1954.
Veículo de tração animal, sobre duas rodas, com pneus e câmara de ar, um eixo de ferro forjado com três feixes de molas, dois no sentido longitudinal e eqüidistantes de uma linha imaginária que passa entre os varais e um terceiro no sentido de bombordo a boreste por ante a ré do eixo de rodas já referido.
Uma plataforma, onde se fixam os varais pela parte inferior, é apoiada sobre os feixes de molas e dotada de uma balaustrada de madeira, que limita a praça do veículo.
Os varais são vergas de madeira lançadas para a proa, onde, mediante dispositivos de couro curtido denominados arreios, o eqüino é ajustado de sorte a, por tração, movimentar o sistema volante nos rumos necessários.
O aparelho frenador é de dupla ação, sendo exercido por meio de rédeas nas mandíbulas do motor e por meio de sapatas na periferia das rodas.
O aparelho motor dianteiro, constituído de um eqüino destesticulado, de força variável, função da alimentação, descarrega de forma líquida e semi-sólida para o solo, jamais para a atmosfera.
(a) JONAS D'OLIVEIRA PAREDES
Capitão-de-Mar-e-Guerra
Capitão dos Portos
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NENHUM DIA É LONGO DEMAIS
PARA UM HIDRÓGRAFO
FONTE: Adido Naval da Inglaterra, Brasília, 1993
Se você acha que tem uma rotina dura em seu trabalho, seja ele qual for, leia isto:
Eu e o outro oficial, que guarnecíamos a lancha de sondagem, regressamos ao navio, após 11 horas de sondagem por interseção à ré,
em uma pesquisa de grande escala para o fundeio de minas defensivas.
A caderneta de sondagem continha cerca de 600 posições que ainda não haviam sido sequer plotadas.
O Comandante dera a ordem para que todas as 2880 posições estivessem
plotadas, reduzidas e lançadas na folha de sondagem naquela mesma noite.
Trabalhamos exaustivamente na sala de desenho até às 3 e meia da madrugada
quando, ainda faltando 177 posições, literalmente pregados pela fadiga, desabamos em nossos beliches.
Às 5 e meia, fomos despertados pelo Imediato e levados à presença do Comandante, que se encontrava junto ao portaló. Segundo às tradições navais inglesas, ficamos em sentido em frente ao Comandante e recebemos a ordem gritada pelo Imediato:
"Para tirar chapéu, UM... DOIS... TRÊS!"
Perguntado o porquê de não ter cumprido uma ordem clara e direta, eu, como o mais antigo dos dois, balbuciei, diante da expressão de desdém do Comandante, que havíamos passado 12 horas a bordo da lancha de sondagem e executado, em seguida, mais 8 horas contínuas de trabalhos de gabinete, e chegamos a um ponto em que não mais conseguíamos manter os olhos abertos.
O Comandante, denotando todo o seu desprezo por tamanha demonstração de fraqueza em legítimos hidrógrafos, retorquiu:
"No meu tempo de tenente, na sua idade, a Hidrografia não contemplava frases tipo NÃO CONSEGUIMOS."
"Para colocar chapéu, UM... DOIS...TRÊS!
berrou o Imediato,
"Acelerado, marche!!"
De volta para a lancha e mais 12 horas de sondagem. Naquela mesma noite a folha de sondagem estava pronta."
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Lanterna de Popa do Sirius
Foto por Daltro
LANTERNA DE POPA DO NHi SIRIUS
Lucimar Luciano de Oliveira
Lanterna de popa, quem te vê não sabe
que te chamas Solidão.
Solidão é teu nome,
em noites longas no mar,
naqueles tempos antigos,
de viajar, viajar...
Solidão é teu destino,
de o sem-fim iluminar,
dessas estradas perdidas
que a gente teve que andar...
Solidão é teu silêncio,
é tua dor, tua luz,
desafiando as estrelas
que o universo conduz...
Solidão é tua alma
que ilumina sem parar
e que dá força e coragem
a quem parte para o mar...
Se Solidão é teu nome, lanterna de popa,
vem agora, vem comigo,
porque meu nome... meu nome... sabes tu qual é meu nome?
Adivinhaste, é Saudade!
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Desenho do SO HN Viana, fornecido por Adrião
Nhi Órion - 1961 - Comissão de Levantamento da Lagoa dos Patos
O CB ET, Mestre em sobrevivência e o CT, Eletrônico
com conhecimentos de hidrografia
HOMENAGENS TOPONÍMICAS
A Membros de Equipes Hidrográficas
- BANCO DO ÁLVARO, no litoral do Maranhão.
Referência a ÁLVARO VIANNA FERREIRA DA SILVA
Oficial que faleceu a bordo do "Sírius".
- BANCO DO BARÃO, na Barra Norte do Rio Amazonas.
Referência a CLOVIS AUGUSTO LUDOLF GOMES.
- PEDRAS JALTRO, nas cercanias da Praia da Penha, perto de Itajaí.
Referência a JANOT + DALTRO:
EUCLIDES DUNCAN JANOT DE MATOS
DALTRO MARQUES DE OLIVEIRA
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Desenho do 1oTen Benzi, fornecido por Wesley
NF Alte. G.Aranha - 1999 - Comissão Farol Nornordeste IV
A aeronave "sua" para transportar o motor-gerador para o RF
Abrolhos
Pouso no Canopus, 1960
Foto por Gabriel
FAINA DO HELICÓPTERO
Lucimar Luciano de Oliveira
A poesia do helicóptero não está no nome,
empolado, arrogante, primeiro-mundo.
A poesia do helicóptero
está nas pás batendo ao vento,
no corpo de louva-a-deus atravessando o infinito.
Está no gesto leve e simples como se levanta
e corre solto no céu, sobre os telhados e as casas.
A poesia do helicóptero está no homem,
no sonho do homem,
na força do homem
de criar um mundo novo
cada dia.
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Desenho do 1oTen Benzi, fornecido por Wesley
NF Alte. G.Aranha - 1999 - Comissão Farol Nornordeste IV
Os faroleiros "comandos" efetuando um "rapel"
para a manutenção do
Farol de Fernando de Noronha
"Sentindo & Pensando"
Fragmentos do livro (1996), de mesmo nome, do saudoso Amy Kiffer
Fornecidos por Wesley
"Tenho um grande defeito (ou talvez um bom defeito). É um defeito tão grande (ou tão bom) que evita que eu tenha outro grande defeito (um grande defeito que talvez nunca seja bom). É que sou muito calado; em compensação não falo demais."
"Passei mais de trinta anos pensando. Ao contrário dos lógicos só passei a existir depois que parei de pensar e deixei-me antes sentir."
"Talvez não possa dizer que tivesse ajudado a fazer nem uma linha da História do Brasil, mas certamente ajudei a fazer pelo menos uma pequena parte de sua geografia. Apenas para justificar meu possível orgulho, deve-se considerar que nos tempos modernos não existe História sem Geografia."
"A eternidade é uma infinidade de momentos, ou de instantes; os momentos, ou instantes, são eternos, porque do contrário não haveria eternidade."
"Ouvi um escritor dizer que as pessoas escrevem para buscar a imortalidade. Concordo e acho fascinante. Mas de repente passei a achar que tudo que se faz tem, inconscientemente é claro, como finalidade a busca da imortalidade. As pessoas que desistem da imortalidade também desistem da vida."
"Em todo o tempo do sofrimento agudo acho que aprendi a morrer; não tenho certeza é se aprendi finalmente a viver."
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O "BAEPENDI" E OS PRIMÓRDIOS DA OCEANOGRAFIA
Adaptado do livro "Minha Casa, Meu Cais"
De Lucimar Luciano de Oliveira
Procuro outro navio, que vá para o mar. Há o contratorpedeiro-escolta "Baependi", navio de faina: subordinado à Diretoria de Hidrografia e Navegação, está de partida para o Sul. O comandante Murillo Souto Maior de Castro me convida, as coisas se arranjam e, em poucos dias, me apresento.
Os destroyers de escolta tinham também servido à Marinha americana, na segunda guerra, entre eles o nosso "Baependi". Comprido e estreito, mas forte e valente, jogava muito se pegava tempo. Desgastado em quase vinte anos de uso permanente, já não corria como na guerra, mas se prestava com ânimo a qualquer tarefa que lhe dessem, de trabalhar pesado em mar aberto.
No correr de 62 e 63, viajamos sem parar, em operações oceanográficas. Estudamos a convergência subtropical, das correntes do Brasil e das Malvinas, na costa sul, durante a operação Trident. E a corrente de Cromwell, contracorrente profunda do ramo sul-equatorial da corrente do Brasil, na Equalant. Nesta última, equipes de pesquisadores, de Recife e Fortaleza, e professores vindos do Japão, trabalham conosco.
Ainda vejo, na bruma da memória cansada, o vulto olímpico do Shinegatsu Sato (Doutor Satô), doutor em oceanografia pela Universidade de Osaka, na coleta de amostras dos arrastos da draga, pano branco de guerra amarrado à cabeça. Companheiro que, nas horas vagas, contradizendo o jeito samurai, insiste em ensinar-me algumas frases do complexo idioma, galanteio a ser dito às mulheres, na chegada do porto:
Anatá nashiniwá ikireraremassém! I can’t live without you! ou: anatawá
kireiná ôdjô-san dêssu! You are a beautiful girl! - e ria sempre, à solta,
gozando meu constrangimento de cristão novo, recém-casado, cheio de
escrúpulos.
A viagem à região do equador é extensa, penosa, difícil. O grupo
destilatório, que devia transformar água do mar em potável, não funciona. Em travessias de onze, doze dias, tomar banho, só de água salgada; e escovar os dentes, com um copo do líquido precioso, é luxo. Mas, depois de um mês e meio de trabalhos, estamos de retorno. Atracamos em Recife.
Nessa época, Brasil e França se enfrentavam: o governo brasileiro impedia que navios de pesca daquele país explorassem a lagosta, abundante ao largo do Nordeste. Depois de forte disputa no campo diplomático, navios de guerra franceses e a esquadra brasileira se posicionam na área de conflito. Devido a essas circunstâncias, o "Baependi" recebe ordem de ficar em Recife. Ali permanecemos, à disposição da esquadra, até que terminasse a guerra da lagosta.
Atracado à praça Rio Branco, no centro de Recife, assisto ao espetáculo das ruas. Ruas onde corre o sangue dos bordéis, delírio de boleros e canções. Ruas de mulheres soltas e homens desesperados. Ruas onde o amor se faz de esmola, a preço vil, permeado de cerveja e suor, mau-gosto e lágrima. Ali, naquelas ruas, naqueles dias, aprendi a ter piedade. Do ser humano indigente, maltrapilho, que quer afeto a todo custo e não encontra. De meninos e meninas, prostituídos tão cedo, que jamais recebem, de quem quer que seja, um gesto de carinho.
Depois de um mês em Recife, retornamos ao Rio.
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Esta página se destina à publicação de histórias ocorridas na hidrografia
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