José Maria Penido, o saudoso "Zeca Penido", navegador de iates
em regatas oceânicas internacionais, conhecido por usar grande
criatividade e inventiva nas fainas hidrográficas, era o
Encarregado de Navegação do NHi "José Bonifácio" (o "Juca
Bonifácio" como era tratado carinhosamente pela sua tripulação).
Em viagem do Rio de Janeiro para o Porto do Rio Grande, a fim
de realizar o levantamento de fim do Curso de Hidrografia de 1959,
o "Zeca Penido" não se conformava com a velocidade de apenas
6 nós daquele velho "Ita do Norte" de 1908, transformado em Navio
Hidrográfico. O navio era tão lento que "Zeca Penido" dizia
que no Livro de Quarto não se deveria lançar "demandou o porto de..."
e sim "garrou com destino ao porto de...".
De fato, quando o vento e as correntes eram contrárias ao rumo,
a velocidade caía tanto, que era comum um oficial de quarto receber
o serviço ainda se avistando o farol com que tinha passado o serviço
em seu último quarto.
Ao largo de Santos, "Zeca Penido", fazendo uma inspeção nos
imensos porões do "Juca Bonifácio", descobre um item raríssimo
de marinharia: uma camisa de colisão. Constituía-se este antigo item
numa imensa lona que servia para, em caso de vazamento no casco
de vante, lançá-la n'água e literalmente vestir o casco pela proa,
impedindo ou retardando a entrada de água.
Imediatamente a centelha inventiva do "Zeca Penido" levou-o a imaginar
que o formato da camisa de colisão em muito se aproximava de uma
grande bujarrona, que ele estava acostumado a ver nas suas regatas
oceânicas.
Entusiasmado com o achado, recorre ao Comandante para obter permissão
para usar a tal camisa de colisão como uma bujarrona no "Juca Bonifácio".
O Comandante, um tanto perplexo, perguntou:
"Mas, e a mastreação, o maçame, o poleame e outros apetrechos
necessários ?
Respondeu imediatamente "Zeca Penido":
"Não há problema, porque também achamos um pau de surriola que vai
servir como um esplêndido spinnaker. Quanto ao maçame e ao poleame,
já falei com o Contra-Mestre, que me disse poder implementá-los.
Diante de tal entusiasmo, disse o Comandante:
"Perfeitamente...vamos tentar".
Durante uns dois dias, via-se o "Zeca Penido", o Contra-Mestre e a
marujada de convés emaranhados em cabos, polias e a tal camisa
de colisão, que fora exposta ao sol para evaporar a umidade acumulada
durante décadas. Nos dias seguintes, o aparelho de içamento estava pronto
e o pau de surriola disparado por ante-a-vante da proa.
Mas a coisa não era assim tão simples, pois, sabem os velejadores
que uma bujarrona só se iça com vento pela popa. Enquanto se
esperava por uma direção favorável do vento, "Zeca Penido" empenhava-se,
como bom navegador, a medir, com a maior precisão possível, a velocidade
do "Juca Bonifácio" sem a bujarrona, para compará-la, mais tarde, com a que
o navio viesse a ter com a vela enfunada.
Mais alguns dias se passaram, com tudo pronto para içamento da
bujarrona, até que o vento rondou e ficou finalmente à feição numa
bela manhã de sol, ainda não muito distante de Santos. De fato,
após alguns problemas com o guincho, a bujarrona entrou em operação.
"Zeca Penido" corre ao passadiço e retoma suas medições de velocidade,
e ao fim de várias horas descobre triunfante que o navio acrescentara
dois aos seus tradicionais 6 nós.
O Comandante, porém, ordenou que só se usasse a bujarrona durante o
dia, a fim de evitar manobras à noite, caso a direção do vento
se tornasse inadequada.
Esta bujarrona foi usada até as proximidades do Cabo de Santa Marta,
a partir do qual a direção dos ventos se tornou muito instável.
Percebíamos que alguns navios que cruzavam com o "Juca Bonifácio"
faziam pequenos desvios em seus rumos para passar a distâncias menores,
possivelmente para entender bem aquela estranha visão de um veleiro
fazendo tanta fumaça.