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PAULO MOREIRA E A GUERRA DA LAGOSTA

por Gabriel de Almeida   

No início dos anos 60, o Brasil e a França mobilizaram forças navais para tentar resolver uma disputa internacional, na qual lagosteiros franceses foram apreendidos, por autoridades brasileiras, por pescarem lagosta no litoral do nordeste. Este incidente ficou conhecido, na época, como a "Guerra da Lagosta".

Apesar da intensa mobilização naval em ambos os países, a diplomacia prevaleceu e ficou acertado um debate entre a França e o Brasil, em país neutro da Europa, para tentarem um acordo.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil recorreu à Marinha para que esta fornecesse um técnico em oceanografia. Quem melhor que o Alte. Paulo Moreira? Imediatamente este recebeu a missão de assessorar a Comissão Diplomática Brasileira, designada para o debate combinado.

O debate foi iniciado pelo representante francês, que intransigentemente oferecia apenas uma solução, que seria a admissão de que o Brasil não tinha o direito de proceder como procedeu e que a França tinha todo o direito de pescar lagosta naquela área de nosso litoral.

Os diplomatas brasileiros, contudo, tentaram estabelecer, com os representantes franceses, que a lagosta seria uma riqueza natural da plataforma continental e que, portanto, pertencia ao Brasil, embora os peixes, por se moverem livremente acima da plataforma, não fossem assim necessariamente considerados, respeitados os limites do mar territorial e os tratados internacionais firmados.

Mas, mesmo assim, insistiam em que a França tinha o direito de continuar pescando lagosta e parecia que o debate jamais chegaria a uma conclusão.

Durante todos estes longos debates, o Alte. Paulo Moreira mantinha-se atento, mas não fazia nenhuma intervenção, e só repondia laconicamente às perguntas de seus colegas brasileiros na referida comissão, que estavam, àquela altura, um tanto decepcionados com o desempenho do seu colega Almirante.

Como havia prazo para encerramento dos debates, chegou a hora das falas dos últimos representantes de cada país. O último francês a falar discursou exaustivamente, defendendo a tese de que a lagosta era apanhada durante seus pulos na água, momento em que, afastando-se da plataforma continental, nestas condições poderia ser considerada um peixe.

O último brasileiro a falar foi o Alte. Paulo Moreira, que calmamente subiu ao pódio e, num francês irrepreensivel, declarou apenas o seguinte:

"O Brasil está disposto a aceitar a tese da França se os dignos representantes franceses concordarem que:

Quando o canguru dá seus saltos, pode ser considerado uma ave."

E foi sentar-se.

O Brasil ganhou a questão.
 

 

 

 

Foto por Daltro
TRABALHO NO MAR

por Lucimar Luciano de Oliveira   


Acho que deve ser assim: fazer poesia com o trabalho,
fazer poesia com a vida.
Poesia é sangue, é dor, é luta, é suor.
Não a poesia bonitinha do cartão postal,
mas a poesia suada das muitas fainas pesadas,
de rebocar a bóia, de fundear na raia, de marcar posição.


Depois, ficar lembrando as bóias da vida,
as raias da vida, as posições da vida.
E, muito mais: as dores da vida,
as fainas da vida.


Se você soube construir esse destino,
se você soube navegar esse balizador,
se você soube ser esse marinheiro,
de olhar na tarde o horizonte distante,
lembrando a casa querida que ficou pra trás,
se você soube guardar no peito as lembranças bonitas,
singelas, simples,
de uma vida inteira de trabalho, inquietação, melancolia,
sentindo o vento bater na cara,
a água salgada bater no beiço,
o cabelo molhado,
os braços queimados de sol, o corpo cansado,
você então merece a poesia que escreveu
eternizada na fotografia,
e traduzida em palavras quietas, mansas, milagrosas,
que descrevem essa coisa boa que só a gente sabe,
que é ter morado no mar,
que é ter vivido no mar,
que é ter sido muito tempo um homem do mar...


 

 

  Desenho fornecido por Wesley

Rã com espírito bode-verdiano

 

 

 

A BUJARRONA DO NHi JOSÉ BONIFÁCIO

por Gabriel de Almeida   

José Maria Penido, o saudoso "Zeca Penido", navegador de iates em regatas oceânicas internacionais, conhecido por usar grande criatividade e inventiva nas fainas hidrográficas, era o Encarregado de Navegação do NHi "José Bonifácio" (o "Juca Bonifácio" como era tratado carinhosamente pela sua tripulação).

Em viagem do Rio de Janeiro para o Porto do Rio Grande, a fim de realizar o levantamento de fim do Curso de Hidrografia de 1959, o "Zeca Penido" não se conformava com a velocidade de apenas 6 nós daquele velho "Ita do Norte" de 1908, transformado em Navio Hidrográfico. O navio era tão lento que "Zeca Penido" dizia que no Livro de Quarto não se deveria lançar "demandou o porto de..." e sim "garrou com destino ao porto de...".

De fato, quando o vento e as correntes eram contrárias ao rumo, a velocidade caía tanto, que era comum um oficial de quarto receber o serviço ainda se avistando o farol com que tinha passado o serviço em seu último quarto.

Ao largo de Santos, "Zeca Penido", fazendo uma inspeção nos imensos porões do "Juca Bonifácio", descobre um item raríssimo de marinharia: uma camisa de colisão. Constituía-se este antigo item numa imensa lona que servia para, em caso de vazamento no casco de vante, lançá-la n'água e literalmente vestir o casco pela proa, impedindo ou retardando a entrada de água.

Imediatamente a centelha inventiva do "Zeca Penido" levou-o a imaginar que o formato da camisa de colisão em muito se aproximava de uma grande bujarrona, que ele estava acostumado a ver nas suas regatas oceânicas.

Entusiasmado com o achado, recorre ao Comandante para obter permissão para usar a tal camisa de colisão como uma bujarrona no "Juca Bonifácio". O Comandante, um tanto perplexo, perguntou: "Mas, e a mastreação, o maçame, o poleame e outros apetrechos necessários ? Respondeu imediatamente "Zeca Penido": "Não há problema, porque também achamos um pau de surriola que vai servir como um esplêndido spinnaker. Quanto ao maçame e ao poleame, já falei com o Contra-Mestre, que me disse poder implementá-los.

Diante de tal entusiasmo, disse o Comandante: "Perfeitamente...vamos tentar".

Durante uns dois dias, via-se o "Zeca Penido", o Contra-Mestre e a marujada de convés emaranhados em cabos, polias e a tal camisa de colisão, que fora exposta ao sol para evaporar a umidade acumulada durante décadas. Nos dias seguintes, o aparelho de içamento estava pronto e o pau de surriola disparado por ante-a-vante da proa.

Mas a coisa não era assim tão simples, pois, sabem os velejadores que uma bujarrona só se iça com vento pela popa. Enquanto se esperava por uma direção favorável do vento, "Zeca Penido" empenhava-se, como bom navegador, a medir, com a maior precisão possível, a velocidade do "Juca Bonifácio" sem a bujarrona, para compará-la, mais tarde, com a que o navio viesse a ter com a vela enfunada.

Mais alguns dias se passaram, com tudo pronto para içamento da bujarrona, até que o vento rondou e ficou finalmente à feição numa bela manhã de sol, ainda não muito distante de Santos. De fato, após alguns problemas com o guincho, a bujarrona entrou em operação. "Zeca Penido" corre ao passadiço e retoma suas medições de velocidade, e ao fim de várias horas descobre triunfante que o navio acrescentara dois aos seus tradicionais 6 nós.

O Comandante, porém, ordenou que só se usasse a bujarrona durante o dia, a fim de evitar manobras à noite, caso a direção do vento se tornasse inadequada.

Esta bujarrona foi usada até as proximidades do Cabo de Santa Marta, a partir do qual a direção dos ventos se tornou muito instável.

Percebíamos que alguns navios que cruzavam com o "Juca Bonifácio" faziam pequenos desvios em seus rumos para passar a distâncias menores, possivelmente para entender bem aquela estranha visão de um veleiro fazendo tanta fumaça.
 

 

 

 

Foto por Daltro
"A TRAQUITANA E A VOADEIRA"

por Lucimar Luciano de Oliveira   


A traquitana e a voadeira
É uma história melhor,
Em mais de mil peripécias
Que o Daltro não nos contou...


É uma história de faina,
Que eu bem sei aconteceu
Naquelas margens de rio
Que a mãe-floresta escondeu...


Os antigos apontavam
Caminhos de hidrografia,
Max, PIRF e tantos outros
Feitos na mesma porfia...


Não era fácil o trabalho,
Pois exigia firmeza,
Consciência, persistência
Muitos livros sobre a mesa...


A traquitana e a voadeira
Deram contribuição
Inestimável, portanto,
Para alcançar perfeição


Pois a nossa DHN
É orgulho da Marinha
Não amolece na faina
E anda sempre na linha!
 

 

 

 

O MEU MAR

por Antonio Carlos de Oliveira e Silva   


O meu mar é azul profundo
Sem fundo e sem fim


O meu mar é escuro
Injusto vingativo
Traiçoeiro pernicioso
Dissimulado
Mentiroso


O meu mar é cinzento
Zangado ventado
Espumado revirado
Irritante conflitante


O meu mar é verde
Ondulado calmo
Plano liso alegre
Bonançoso generoso
Amigo
Às vezes triste


O meu mar é meu transtorno
Meu encontro meu desencontro
Minha loucura
Meu desejo meu anseio
Minha paixão minha ilusão
Meu devaneio


O meu mar é meu porto
Meu fado meu caminho
Minha ida e minha volta
Meu ser e meu estar
Meu consolo
Meu dia
O meu mar é minha noite
Solitária agoniada fria


O meu mar é minha casa
Meu sossego
Minha vida minha morte
Meu princípio meu fim
Meu tudo meu nada


O meu mar sou eu
Eu sou ele
Ele é eu

 

 
Acos, junho de 2001


 

 

 


Esta página se destina à publicação de histórias ocorridas na hidrografia

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