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Primeiro Capítulo do Conto
A ÚLTIMA SINGRADURA A PANO

 

 

 
NOc "Almirante Saldanha"
Foto por Daltro

A ÚLTIMA SINGRADURA A PANO

por Antônio Carlos de Oliveira e Silva

Um conto em 3 Capítulos


 

 

 

 

A ÚLTIMA SINGRADURA A PANO
Primeiro Capítulo

Neste Primeiro Capítulo veremos uma simples frente fria transformar-se em violenta tempestade que ameaça o navio. Conheceremos o Velho Barco e nos assustaremos com a imensa onda que o ameaça. Navegaremos juntos pelos mares tempestuosos da imaginação mas lembrem-se: qualquer semelhança pode ter sido intencional, mas não quer dizer que foi...

 

       O dia amanheceu claro e sem qualquer prenúncio de desgraça. O vento era suave de NE, o navio seguia firme no rumo 052o e as providências normais da rotina estavam em andamento. Marinheiros preparavam-se para mais um dia no mar, oficiais eram acordados para o café e o Comandante, que como sempre chegara ao passadiço no crepúsculo, saboreava um pão ainda quente recém-saído da padaria do navio. Um cafezinho ajudava-o a engolir porque o padeiro era novo na matéria e ainda não havia acertado com a massa.

       O meteoromarinha havia antecipado a passagem de uma frente mas o aspecto, o "jeitão", a cara do dia faziam duvidar da previsão. Era um engano. Por volta de meio dia a temperatura havia subido bastante, o vento apertara um pouco e o barômetro caíra de 1012mb para 1010mb. Apenas dois pontinhos, mas uma variação anormal pois, àquela hora e com aquela temperatura, a variação normal seria para cima.

       Durante o dia as conversas haviam girado em torno de Rio Grande, porto de onde vinham após quase três meses de comissão e onde haviam desembarcado os universitários gaúchos que participaram daquela etapa do programa de pesquisas oceanográficas em andamento na DHN.

       A essa altura os balanços haviam aumentado um pouco, a temperatura continuava subindo e o barômetro caindo. Às três horas da tarde o Comandante ficou preocupado. Chamou o Mestre do Navio, comentou sobre o tempo estranho, certificou-se de que havia trazido a atenção do 1o Sg para o problema, determinou que verificasse objetos soltos e preparasse o navio para mau tempo.

       "Nada demais, apenas uma frente fria, mas ainda assim, prepare-se e prepare o navio. Não esqueça de passar um cabo de vaivém ao longo do convés".

       Em seguida chamou o Imediato e juntos analisaram novamente a previsão meteorológica. As isóbaras apertadas denunciavam ventos fortes que viriam de SW. O centro de baixa, afastado e movendo-se com rapidez, permitia imaginar uma frente de passagem rápida que em menos de 24h desapareceria adiante do navio deixando apenas aquelas grandes ondas entrando pela popa, o chamado "marzão" , que reflete o céu lavado pós-tempestade e adquire um azul tão profundo e tão denso que às vezes nem parece água. E que nós, marinheiros, e só nós, temos o privilégio de ver.

       Depois das 5 horas o barômetro havia descido para 1003mb e continuava baixando. Isso sim, preocupava. Aquele movimento descendente da coluna de mercúrio era o anúncio seguro do que estava para chegar. Agora o Comandante já pensava em que noite iria ter.

       Foi quando tudo começou. De pé no lais de BB do passadiço observando o tempo, o Comandante sentiu quando o vento parou. Aquilo foi tão estranho que todos perceberam e entreolharam-se. Na verdade, todos olharam para ele buscando ver no seu semblante alguma explicação para aquele calor opressivo e para aquela cessação de movimento da natureza. Procuravam uma garantia de que tudo estava bem e de que tudo ficaria bem. Mas ele sabia o que viria. E não sabia esconder.

       A temperatura subiu mais dois graus rapidamente, o barômetro desceu mais ainda e o vento, livre de peias mas prisioneiro dos novos parâmetros impostos pela natureza, caiu com violência vindo de SW. A primeira rajada já chegou com cerca de 20 nós, subiu logo para 30 nós e ficou variando, pouco mais pouco menos, ali mantendo-se por algum tempo.

       O mar começou a crescer com as ondas entrando pela popa e levantando o navio. Este subia por alguns momentos, embicava a proa, corria de jacaré e quando a onda ultrapassava meio-navio a proa começava a ser levantada e tinha-se a impressão de que o navio escorregava para trás. Não era confortável. Pior, só mar de alheta, quando a onda pega o navio quase na popa, leva-a junto e faz com que a proa volte para o bordo do ataque. As variações de rumo chegam facilmente a vinte graus para um bordo e para o outro.

       É como se o navio estivesse dançando no mar. Na realidade é isto mesmo que acontece. Mas agora, não. O mar de popa assustava na medida em que a próxima onda algumas vezes era mais alta que o navio e parecia querer cobri-lo. O vento já andava por volta de 40 nós e o Comandante lembrou-se do veleiro Cutty Sark, para sempre docado em Greenwhich , na Inglaterra, que uma vez foi coberto por uma onda. A descrição do fato pode ser lida no "Captain's log", o diário de bordo, que lá está à disposição dos visitantes acompanhado de um desenho que mostra o timoneiro e o comandante lutando para sobreviver num convés alagado, mais que alagado, submerso. Mas aquilo acontecera há muito tempo, não iria repetir-se.

       De fato, quando as imensas ondas chegavam levantavam a popa e corriam por baixo do navio até que o ultrapassavam e davam lugar para a seguinte.

       "É assim mesmo, vamos nos agüentar. Já estamos correndo com o tempo, é só esperar..."

       O Comandante não gostava de correr com o tempo. Ele preferia meter o navio na capa e aí agüentar-se caturrando. Os balanços são maiores mas o governo é muito melhor, embora o abatimento seja grande. Mas agora correr com o tempo significava andar mais depressa de volta para casa. Ele também não tinha como saber a peça que a natureza havia preparado.

       O centro de baixa havia-se desviado do seu rumo e veio para cima do navio. O barômetro, que havia estacionado, recomeçou a descer rápidamente. O vento subiu para 45kn com rajadas de até 75kn! Aquilo era novo. Nunca antes, em seus comandos anteriores, ele tinha enfrentado situação parecida, até porque aquilo não era comum acontecer nas nossa costas.

       Ele conhecia seu navio. O Velho Barco, construído em Barrow in Furness, em 1933, era originalmente um veleiro de quatro mastros com o traquete redondo e os outros latinos. Em 1963 havia sido modificado, perdera os mastros, recebera laboratórios e continuara sendo o que sempre foi: um navio-escola, o berço da oceanografia brasileira. O espírito de seu primeiro comandante na nova fase, e grande impulsionador das ciências marítimas no Brasil, o Almirante Paulo de Castro Moreira da Silva , velava por ele.

       Nada iria acontecer. Esta seria a terceira vez que seria violentado por um centro de baixa e como das outra vezes, depois da tempestade, ele navegaria tranqüilo para casa, um pouco desarvorado é verdade, mas nada que alguns pequenos reparos não pudessem sanar.

       O tempo continuou piorando. O Mestre havia feito seu trabalho, tudo estava peiado, mas a Física não abria mão dos momentos, dos senos e dos cossenos. Uma ampola de oxigênio soltou-se e machucou um marinheiro na sua louca disparada pele praça de máquinas; a capa do escaler foi arrancada pelo vento e as antenas foram-se. E com elas, as comunicações.

       "Menos mal, pensou, isto é problema mais dos outros que nosso...."

       O Comandante então lembrou-se das cavernas tortas. Havia no paiol de mantimentos uma série de cinco cavernas tortas que sempre despertaram sua curiosidade. Não encontrou registro do fato, mas aquilo sempre o preocupou.

       "Cavernas tortas, como pode ser"? pensou mais uma vez.

       Atribuiu o fato ao naufrágio do navio em Porto Rico ainda na década de trinta, quando foi salvo unicamente porque a Marinha fez esta opção, sem limitar despesas. Talvez aí, batendo no fundo, aquelas cavernas tenham sofrido tanto que curvaram-se fazendo uma letra C com a concavidade voltada para a esquerda.

       "Mas as chapas do costado são presas por arrebites. Como ficaram? Esticaram para acompanhar as cavernas? Os arrebites estavam firmes"?

       Nunca conseguira respostas para estas indagações e não era hora de pensar nisso. Agüentaram até agora, que continuem agüentando.

       Dez horas de uma noite horrorosa já haviam passado. Ninguém dormira, ninguém viera ao convés, ninguém teve um minuto de sossego. As ondas sucediam-se, incansáveis, enormes, e o Velho Barco resistia rangendo, subindo e descendo nas ondas. O barômetro havia-se estabilizado lá em baixo e não subia. Pelo menos parara de cair. O vento continuava sua pérfida tarefa de levantar o mar, passando para ele uma inesgotável quantidade de energia.

       Os timoneiros revezavam-se a cada meia hora, tal era o esforço que faziam para manter o rumo e não deixar o navio atravessar. Se isso acontecesse... não, melhor não pensar. A bordo todos estavam de salva-vidas vestido. O Comandante custou um pouco para dar esta ordem temendo que a tripulação se assustasse mais do que seria normal. Conversou com o Imediato e os argumentos dele o convenceram.

       Ele mesmo, Imediato, iria percorrer os alojamentos e mais onde estivessem marinheiros e lhes diria que era uma precaução natural, um cuidado do Comandante, mas que o navio não estava em perigo.

       O Comandante decidiu ir até sua câmara. Não havia descansado sequer um minuto, dormir nem pensar, nem mesmo atendera suas necessidades físicas que independem das condições de mar. Ficam até esquecidas mas, de repente, apresentam-se com características de iminência não mais postergável. Para ir até lá só havia um caminho que era por um convés aberto. No Velho Barco não havia acesso interno para o passadiço.

       As primeiras cores do dia já anunciavam-se apesar da escuridão da tempestade. Ele deixou o passadiço e tomou o rumo da popa. Teria que caminhar cerca de 25 ou 30 metros na chuva e no vento até penetrar em seus alojamentos. Agasalhou-se, segurou no cabo de vaivém que havia sido passado pelo Mestre do Navio e iniciou a caminhada.

       Foi então que ele a viu, aquela massa escura aproximando-se da popa. A princípio, não acreditou. A onda era muito mais alta que o navio e sua crista já vinha arrebentando como se estivesse chegando numa praia. A crista, por estar mais exposta ao vento tinha um pouco mais de velocidade o que causava uma concavidade assustadora como se fosse uma imensa barriga chupada e vazia, faminta para engolir o que encontrasse em seu caminho.

       Até mesmo o vento, como que admirando sua obra, diminuiu um pouco, reduziu seus assobios sinistros e trouxe ao navio o barulho da onda. O Comandante lembrou-se da onda do Cutty Sark.

       "Será que vai acontecer? Será que ela vai passar por cima de nós"?


 

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