O Comandante voltou-se para retornar ao passadiço mas não teve tempo. A onda foi mais rápida que ele. Ela pegou o "Saldanha" pela popa e um pouco pela alheta de BE e ignorando as três mil toneladas do navio fê-lo subir como se fosse uma bola chutada por um jogador de futebol tal era sua força e velocidade.
Sua crista desabou sobre o convés principal, arrebentou uma porta que dava
acesso ao corredor dos camarotes dos oficiais, inundou vários deles e
atingiu a Praça d'Armas. A popa subiu tanto que a proa entrou toda na água e
parecia que o navio ia mergulhar. O balanço foi tão grande que o trincaniz
beijou a água e quase mergulhou.
O Comandante foi jogado contra a antepara que circunda o passadiço na sua parte descoberta e machucou seriamente um braço, coisa que só percebeu depois porque agarrou-se no pelorus para não ser atirado ao mar.
A onda ultrapassou meio-navio e o balanço repetiu-se para o bordo oposto. Novamente o Comandante foi jogado com força contra a antepara.
Nesse momento o oficial de serviço conseguiu alcançá-lo e levá-lo para dentro do passadiço.
A onda seguiu seu caminho sendo acompanhada pelos olhos quase atônitos e incrédulos do Comandante e do pessoal de serviço que,
estupefatos, olhavam aquela muralha de água que se afastava rapidamente.
Ficaram alguns segundos em silêncio até que o Comandante telefonou para o
Imediato e mandou-o percorrer o navio e verificar a situação do pessoal e do material.
O timoneiro estava bem, governando firme. O mostrador de RPM indicava as
costumeiras 270 e o comandante notou que podia escutar o barulho do motor
que saía pela chaminé. Voltou-se rapidamente para o anemômetro e constatou o que havia intuído segundos atrás: o vento diminuíra! O aparelho indicava
confortáveis 20 nós! Virou-se para o barômetro e observou que havia subido,
pouco, mas subira!
Uma enorme sensação de alívio percorreu seu corpo. Ele sabia que tudo havia passado. Agora, o mar ia começar a deitar, o vento rondaria para leste e no final da tarde o sol voltaria a brilhar. O passadiço percebeu seu alívio e acompanhou-o.Tudo estava bem. O Velho Barco vencera mais uma vez.
O Imediato chegou com seu relatório que não era muito mau. Alguns
marinheiros estavam machucados, apenas um requeria maiores cuidados. Uma
geladeira soltara-se de seu alojamento e destruiu-se de encontro a uma
antepara e o jogo de totó dos sargentos também quebrou-se. Havia sido
varejado pelo balanço, cruzou todo o espaço do salão e espatifou-se na chapa do costado a BE.
O Imediato não havia visto a onda e estampou na sua face seu
espanto quando o Comandante lhe contou. Aliás, parecia que aquela onda vinha atrás de tudo com a missão de recolher os restos da tempestade e fechar aquele ciclo de violência.
O Comandante resolveu tentar de novo caminhar para a câmara. Novamente
agasalhou-se, saiu do passadiço, segurou no vaivém e iniciou a caminhada.
Ao passar pelo escaler escutou uma voz a dizer:
"Viu? Não confiou em mim, preocupou-se à toa. Agora, sou eu que peço:
preciso ter minha glória restaurada. Faça o que vai querer fazer, eu ajudo".
Voltou-se zangado. Quem se dirigia a ele com aquela intimidade? Quem o
criticava? Quem lhe dava ordens? Não havia qualquer pessoa lá.
Procurou com o olhar e mesmo tentou ver dentro do escaler, mas nada viu. Nem deveria ver. Ninguém deveria estar ali com aquele tempo. O oficial de serviço, que o observava de longe, estranhou os movimentos do Comandante e perguntou se havia algum problema.
"Não, está tudo bem". "Será que foi o vento"? pensou.
Mas ele escutara nitidamente. Alguém lhe dirigira a palavra e não havia " alguém" ali. Que explicação haveria para aquilo? Ele não acreditava em fantasmas, nem mesmo na mulher loura que, diziam, andava pelo navio de noite. Fantasmas preferem a noite, não? Analisou a frase que ficara perfeitamente gravada na sua mente.
"Preocupei-me à toa? Não confiei em quem? Fazer o que eu quero fazer? Como?
Eu só quero chegar em casa"!...
Meu Deus, o navio falara com ele! não, não pode ser, estava ainda sob efeito de uma grande tensão, estava machucado, cansado, sem comer, sem dormir, necessitando urgentemente de um banheiro, não, não mesmo, navios não falam.
Não com palavras. Falam, sim, mas de outra maneira. Navios e seus
comandantes entendem-se e até mesmo conversam, mandam sinais um para o
outro, um reclama do regime de máquinas elevando a temperatura de um
cilindro, outro exige um mancal novo e os comandantes respondem muitas
vezes atendendo e outras vezes exigindo um pouco mais de sacrifício. Não
raro são atendidos. Há Comandantes que falam com eles usando voz e são
escutados. Isso só os Comandantes sabem. Essa intimidade é um privilégio que só a eles é dado e não é compartilhado.
Mas navios usarem voz para falar com seu Comandante é coisa nova. Não há registro disso nas estórias do mar. E no entanto, aconteceu. Ou não?
O tempo amainou. O vento rondou para sul. O mar deitou, as ondas eram agora
grandes, macias e quase sonolentas. O sol brilhava intensamente. Os
oficiais jogavam vôlei na popa (Jogavam, sim. A rede era facilmente montada e a bola ficava amarrada para não cair no mar. Funcionava muito bem!) e na proa havia sido armado pelo Imediato um churrasco para a guarnição com direito a caipirinha e cerveja. Sempre cedera neste aspecto e nunca tivera problemas.
O Comandante, do seu convés, via seu navio relaxado, funcionando e em paz.
A comissão tinha sido executada, a missão tinha sido cumprida, um período de reparos aguardava o navio no Rio. Foi quando o MCP parou.
"Pronto, pensou o Comandante, o que será agora?"
Logo chegou o Chefe de Máquinas com a má notícia: dois bicos injetores do
MCP haviam pifado, não tínhamos sobressalentes, nada poderíamos fazer. Virar o MCP nem pensar. Só havia uma solução: rebocar o navio.
"Não. Reboque, não. Vamos inventar uma solução. Não seremos rebocados."
O Chefe tentou argumentar, mas foi interrompido pelo Comandante.
"Deixe-me só. Quero pensar."
Chamou o Imediato e determinou que o vôlei e o churrasco continuassem, nada
havia a fazer por hora. Ligou para a estação meteorológica do navio,
certificou-se da promessa de bom tempo para os próximos dias, preparou uma
dose do seu whisky, saboreou-a, e dirigiu-se para o lais de BE do passadiço, seu lugar preferido a bordo. Era ali que ele pensava, era ali que sua cabeça ordenava as variantes, era ali que muitas soluções brotavam não sabia bem de onde, nem como, mas era ali. Aliás, ele sabia, sim, de onde vinham idéias e soluções.
A observação dos atos dos seus antigos comandantes, as
experiências em outros navios como tenente e mais tarde como imediato e
comandante, a vivência a bordo, tudo isso vai sendo depositado em algum
lugar no cérebro. Um dia, quando a necessidade surge, aquilo aflora na mente e concorre para a solução do problema presente.
O Comandante não era um oficial brilhante. Era apenas um bom oficial como
tantos outros. Conhecia seu ofício, dedicava-se a ele, a família estava em
segundo lugar. Sua mulher sabia que era assim, aceitava e cuidava dos filhos e da casa com dedicação para que o marido, sempre no mar, não tivesse preocupações com esse lado. Baixo, tendendo para algum excesso de peso, havia deixado de fumar mas às vezes uma dor no peito fazia-o lembrar-se que precisava consultar um cardiologista. Essa dor visitou-o agora. Não deu importância e como sempre ela foi embora.
Resolveu, num impulso que não soube explicar, ir até o lugar onde havia "escutado o navio" durante a tempestade. Lá chegando, sentiu-se um pouco ridículo, mas ali ficou por alguns minutos, absorto. Nada aconteceu. Nada escutou.
"Claro que não, pensou. Navios não falam. Afinal, que estou eu fazendo aqui"? Lembrou-se da frase que ali ouvira:
"...sou eu que peço. Preciso ter minha glória restaurada, faça o que vai
querer fazer...".
Subitamente as idéias clarearam e ele compreendeu tudo. Sua
decisão estava tomada. Vou fazer o que eu quero fazer. Agora ele tinha
certeza que o navio lhe havia falado e mais, sabia exatamente o que ele
queria. Voltou à câmara, chamou o Imediato, o Chefe de Máquinas, o
Encarregado do Convés e o Mestre do Navio. Quando todos estavam presentes,
anunciou sua decisão.