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Terceiro Capítulo do Conto
A ÚLTIMA SINGRADURA A PANO

 

 

 

A ÚLTIMA SINGRADURA A PANO
Terceiro Capítulo

Finalmente, a grande decisão. Saiba mais sobre o Imediato e sobre o Mestre do Navio. Acompanhe o Coro dos Piratas e entre na Guanabara comboiado pela Esquadra Brasileira! Tire sua dúvida: navios falam, sim!

 

       "Não vou pedir reboque. Vamos voltar a pano. Antes que comecem a apresentar dificuldades, vão procurar soluções. Esta é uma decisão. Utilizem todos os recursos disponíveis, façam velas de toldos, usem o que precisarem para fazer uma verga, podem soldar peças no mastro. O que for necessário. Já têm suas ordens, podem ir, mantenham-me informado. Imediato, fique mais um pouco".

       Quando os dois saíram ele olhou para o Imediato e seu olhar claramente perguntava a opinião do oficial e buscava algum apoio. Quem era o Imediato? Seria quase uma ofensa dizer que ele era leal, eis que ele não saberia ser de outra forma. Ele não precisava que isso fosse dito dele. A lealdade era-lhe intrínseca, exercia a Imediatice com proficiência e a amizade com o Comandante vinha sendo construída ao longo das comissões que juntos faziam. O Comandante já o encontrara na função e logo pôde verificar que a informação do colega que lhe passou o comando era absolutamente apropriada:

       "Pode confiar de olhos fechados".

       O Imediato compreendeu o olhar do Comandante e falou:

       "Comandante, acho isto uma loucura, mas nós vamos entrar na Guanabara a pano nem que nossos uniformes virem velas" e retirou-se com os olhos marejados, dominado pela emoção do momento motivada por aquele instante de súbita e profunda união com seu Comandante.

       São coisas do mar. Comandantes e Imediatos, quando se acertam, completam-se. O Imediato cumpre com suas tarefas e de alguma forma penetra nos pensamentos do Comandante indo às vezes adiante dele. Muita vez, quando o Comandante ordena alguma coisa, recebe a resposta de que aquilo já fora feito.

       "Eu sabia que o Sr. ia dar esta ordem..."

       O Encarregado do Convés logo passou da perplexidade para a execução entusiasmada. Tirou os toldos do paiol, escolheu quais usaria como vela e quais seriam cortados para fazer tralhas reforçadas. O Mestre achou ilhoses no seu paiol, linhas de palombar, agulhas, espichas, moitões e tudo mais que iria precisar e começou a trabalhar junto com sua faxina. Cortavam, costuravam, reforçavam.

       O Chefe de Máquinas, incrédulo a princípio, logo planejou como e onde soldar uma chapa de terço para receber uma verga.

       A notícia correu célere pelo navio. Aos poucos, quem não estava na faina chegava para ajudar. O navio parecia estar em faina geral. Moitões e patescas eram preparados. Espias eram descochadas para fazer linhas de costura, escotas, cabos de laborar. Um plano de velas foi elaborado, sua superfície calculada e o Comandante acabou por concluir que com um bom vento de SE ou de S, como estava previsto pela meteorologia, talvez conseguissem entre 2 e 3 nós. Como estavam a 252' do Rio, teriam que velejar nesta velocidade por cerca de 3,5 dias. Não era impossível. Nem mesmo era muito. O casco do navio era de um veleiro, ele havia de responder.

       "Eu ajudo", lembrou-se o Comandante.

       "Deus! Aquilo não podia estar acontecendo. O navio previra aquilo tudo. Aliás, previra ou fizera acontecer? Será que ele tinha estourado os bicos injetores propositadamente para que aquilo tudo acontecesse? Teria ele, afinal, a sua glória restaurada?"

       No crepúsculo da tarde tudo estava pronto. Na hora em que Vésper brilha intensamente no céu e Órion chega para dominar a noite de verão do hemisfério sul e mais uma vez repetir a sua eterna sina de caçador frustrado que nunca alcança sua caça, a verga estava fixada ao mastro e até podia ser braceada! Os amantilhos lá estavam, mas não havia estribos ou andorinhos.

       As palombaduras foram costuradas com ponto redondo para maior firmeza e a vela com ponto cruzado, de boa marinharia. As escotas faziam fixos em improvisadas mesas de malaguetas colocadas no convés principal. Já agora o navio todo vibrava.

       O Mestre não cabia em si. Sua faxina, que ele controlava com o olhar tal era sua ascendência sobre os marinheiros que a compunham, havia mergulhado na faina e agora admirava seu trabalho.

       Mestres e Comandantes têm uma relação especial. Isso tem origem na Marinha antiga onde o First Mate fazia a ligação do Comandante com os Marinheiros e o Primeiro Oficial fazia a mesma coisa com os Oficiais. Ainda vimos um pouco disso nos Cruzadores.

       A palavra Imediato, por sua vez, não é muito antiga entre nós. No couraçado "Aquidabã" que explodiu na baía de Jacuacanga em Angra dos Reis, no princípio de século , o Primeiro Oficial ou o que hoje seria o Imediato, era ainda conhecido como Segundo Comandante.

       O Comandante mandou envergar o pano, bracear a verga e caçar a vela. O vento fecundou-a, o navio respondeu. Ao mesmo tempo, no tope do mastro, içada por um sinaleiro um pouco assustado, apareceu a bandeira dos piratas, a clássica bandeira negra com a caveira apoiada em duas tíbias cruzadas. O Comandante não sabia daquilo. Sentiu que todos o olhavam esperando sua reação. Um leve sorriso de aprovação aflorou-lhe aos lábios, virou-se para o Imediato e recitou a velha canção dos piratas:

       "Éramos quinze sobre o baú do morto ... E uma garrafa de rum! "

       Aos poucos o navio começou a reagir. O timoneiro olhava ansioso para a agulha que de estática começara a pular lentamente de grau em grau. O balanço foi modificando-se, os mais experimentados sentiram que estavam navegando. Não ousaram falar antes do Comandante que olhava para o sol poente o qual anexara ao seu deslocamento para o outro lado do mundo, onde era esperado para servi-los de luz, uma lenta caminhada do través de BE para a alheta de BB percorrendo o horizonte rosado, aviso seguro de bom tempo.

       "Rosado sol posto, cariz bem disposto" diziam os antigos marinheiros!

       O timoneiro entretanto não se conteve.


       "Comandante, estou governando. Qual é o rumo?

       Parece que o navio todo escutou. Foi uma espécie de senha para que se libertassem emoções! Do convés, das cobertas e da Praça de Máquinas subiram ovações, gritos de alegria, comentários, e vivas foram dados ao navio. O "Saldanha" era invencível!

       O Velho Barco voltava a navegar a pano, sua glória estava restaurada. Ainda que aquela aventura durasse apenas algumas horas, seriam as mais belas horas do navio.

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       A estória podia acabar. Aquele navio, conforme ele mesmo havia prometido, ajudou, o vento também, e ao cabo de três dias o "Saldanha" a pano, e agora comboiado por vários navios da Esquadra que foram recepcioná-lo fora de barra, cruzou a Lage no bojo da lestada que costuma cair no Rio no início da tarde e foi até a Escola Naval com sua vela panda. Os aspirantes, informados do que acontecia, saudaram o navio. A vela foi ferrada, a bandeira negra foi arriada, o reboque foi passado e o Velho Barco foi levado ao cais onde atracou.

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       Naquela tarde, terminadas as visitas e apresentações regulamentares, Comandante e Imediato dirigiam-se ao portaló quando, ao passar pelo escaler, o Comandante ouviu uma voz que disse :

       "Obrigado".

       O Comandante, acompanhando suas palavras com uma ligeira reverência de cabeça, respondeu:

       "Eu que agradeço".

       O Imediato, espantado, perguntou com quem o Comandante falara. O Comandante então, com um sorriso de pura felicidade no rosto, disse:

       "Imediato, não faça perguntas que eu não posso responder".

       Caminharam em silêncio até o portaló onde o Comandante foi despedido por seus oficiais com o Mestre no apito. Nos semblantes dos que compunham o cerimonial ele pode notar uma ponta de admiração e de orgulho que o deixou envaidecido.

       Foi com o coração em festa que ele se dirigiu para sua casa. Tudo, até aquele momento, havia valido a pena.

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       Nada disto aconteceu. É apenas uma estória. Afinal, todos sabem que navios não falam. Mas não falam mesmo? Quem pode afirmar? Pois eu até acho que eles falam, sim. Mas é preciso ter ouvidos para ouvir. Mais ou menos como no caso das estrelas .

 


 

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Atualização em Junho/2000 por